quarta-feira, 20 de abril de 2016

Câmara Enquadrada


Tive alguns sentimentos estranhos no último domingo. Passei o fim de semana fora e tudo o que queria era sentar em frente à TV para ver centenas de pessoas engravatadas decidindo o meu futuro. Sim, porque o futuro do Brasil é o meu, o seu futuro, e isso não dá para deixar para lá. Muito mais complexo que simplesmente dedicar um sim ou não para Deus e o mundo, um processo de impeachment é algo muito sério do qual o país não sai ileso. Mas pelo o contrário, tudo o que vi, foi piada.

Não precisa ser especialista em muita coisa para saber que de qualquer forma vamos sofrer. Não me considero pessimista, só não consigo achar espaço para o otimismo me enchia de vontade de ir em busca de dias melhores. Ando cada vez mais cética sobre os bons rumos que poderíamos tomar, embora ainda tente manter a esperança. E se ainda há um resquício dela, é graças ao retrato pintado ao vivo e a cores que todos viram na votação do congresso.

O retrato é uma bagunça. Não tem estilo, não se enquadra em nenhum movimento, nem é feito para apreciação popular. Tudo o que vi na tela foi extremismo, oportunismo, hipocrisia, pseudoreligião no lugar errado, falta de argumentos, falta de conhecimento, um discurso eleitoreiro e vazio... Pérolas e mais pérolas que de tão trágicas nos fazem dar gargalhadas. Porque se tem algo que me irrita e ao mesmo tempo me admira no brasileiro, é justamente a capacidade de rir para não chorar.

Não celebro a beleza do quadro. Ele não tem sentido nenhum. Mas nós o pintamos. Cada pincelada é um voto. Fomos nós que colocamos cada personagem engravatado dentro daquela sala para nos representar. E o pior é saber que sim, toda essas figuras tem a legitimidade de estar ali. Essa tela nada mais é que o espelho da nação. É o espelho da nossa pobreza de pensamento, de conhecimento, de caráter e de espírito. Eles nos comandam com nosso consentimento.

Essa é a nossa câmara de deputados? Essa é a nossa política? Esse é o nosso país?

Agradeço a Cunha. Graças a ele, o quadro foi posto em exibição pública e em horário nobre. Sabe-se lá com que intenção maligna, mas vejamos o lado bom. Não fui a única a me fazer essas perguntas.

Há quantos anos os brasileiros não param para ver o que acontece em Brasília? Quem aí nunca nem assistiu a TV Câmara e TV Senado? Céus, quantas pessoas sequer lembram em quem votaram para o legislativo na eleição passada? 

Parar um pouquinho para saber onde foi parar seu voto não deveria ser extraordinário. Devia ser rotina. E não pensem que estou livre do sermão que eu mesma estou proferindo. Precisamos nos envolver mais, ver o que realmente acontece, e não nos informar por memes e corrente no whats app.

A descrença é geral e não inédita. Desde que nasci escuto que temos péssimos parlamentares, mas pelo menos na minha existência, nunca vi isso foi escancarado em tal proporção. Essa é a nossa política. O Brasil é isso mesmo.

Congressistas contra e a favor do governo Dilma RousseffTodos vimos. E tenho certeza que se esse circo todo serviu para alguma coisa foi para repensarmos sobre o que acontece lá dentro e aqui fora. Somos igualmente extremistas, oportunistas, hipócritas,  corruptos, vazios. Proferimos os mesmos discursos sem argumentos e sem reflexão no palanque chamado facebook. Seríamos igualmente corrompidos. Lembrando que me refiro à regra, não à exceção.

Me recordo que em 2013, na época das manifestações, também achei que as pessoas mudariam. Santa ilusão. Os ânimos estão ainda mais acalorados. Previsões ainda mais nebulosas. Mesmo assim, não pensem que perdi a fé. Mais do que viver num país com jeitinho, somos humanos. Antes de sermos brasileiros, somos humanos. A natureza é a mesma para todos. Talvez sejam só as circunstâncias que escancaram o nosso pior lado. Posso até não viver para ver, mas reza a lenda que toda crise, um dia, passa.

E antes que me perguntem, até domingo eu tinha uma posição sobre o impedimento. Porém, quanto mais procuro me informar sobre política, em especial a do Brasil, mais eu percebo que não sei é de nada. Nem com o melhor telescópio meus olhos de leiga conseguem enxergar alguma solução. Enfim, continuo a estudar, ler, ver as sessões, jornais, conversar, refletir... Não dá para parar. Ainda podemos mudar alguma coisa, nem que seja nós mesmos.

Admito que até gosto disso tudo. Dou meu pitaco de quem se acha A cientista política só por ter acabado de ler O Príncipe. Os fins justificam os meios? Será que alguém sabe que fim é esse? Me pergunto se também sou igual a eles e a possibilidade me enoja.

O melhor, e o pior, do Brasil, continua sendo o brasileiro. E de tão insignificante que sou, acho que vou seguir seu exemplo. Para não chorar, vou rir. Até que venham artistas melhores para pintar um novo quadro, e o país de hoje vire uma mera peça de museu.

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