sábado, 28 de março de 2015

Gélido

Snow And Plane
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Sorvete de chocolate para adoçar a boca e gelar o coração. Congela minhas lágrimas também, irmão. Como vou conseguir convencer a mim mesma que tudo está bem quando até meu corpo discorda de mim? Faz dessas gotas malditas pedras e não as deixem sair dos meus olhos. Faz de mim rocha, ou pelo menos uma daquelas que com nada se importa. Ou me abre uma porta. Me faz morta.

Trágico. Quem nunca pensou nessas coisas? Não minta, afinal, no meio dessa loucura de vida, é impossível ser lúcido todo dia. Como não ando muito normal, hoje pensei em como morreria. Sou covarde demais para um suicídio. Na verdade, soa pra mim até meio ridículo. Mas enfim, andei pensando besteira como se fossem tão graves assim os meus problemas.

Um copiloto problemático me deu algumas ideias. Se ceifar minha própria existência é uma atitude de coragem e eu não a tenho, pensei que gostaria de inexistir nos ares. Imagina que belo fim seria, cair do céu feito chuva e repousar eternamente entre lençóis brancos feitos de água?

Te soa mórbido ser a vítima inocente de um suicida que quer a companhia de 150 pessoas para com ele atravessar a ponte que te leva ao outro lado? Ah, com certeza. Mas não me julgue, colega. Sou só uma solitária das noites de sexta-feira, pensando hipoteticamente na pior forma de se livrar dos seus problemas.

Eu juntaria algum dinheiro e iria para a Europa. Para lá fugiria, o que fazer não importa. Zanzaria até ficar tonta, iria para a Alemanha até ficar sem grana. Viveria de qualquer forma, até ter que ir embora. E aí o destino se recusaria a me levar de volta para o lugar que nasci.

Mágico. Alguém abraça meu corpo gelado. Ah, como eu a amava. Tudo isso enquanto um outro alguém, de longe, chorava. Ela não merecia. Conversa batida. Foi uma boa menina. Jura, querida? Volta. Não dá mais. Vá em paz.

Vá com Deus. E rezariam por mim como se eu fosse para o céu. Sentiriam minha falta como se eu realmente fizesse diferença. Ou pelo menos isso diriam, pois é de bom tom. Sou dispensável. Como qualquer garota de cabelo pouco controlável que se acha bonita de batom, e não nasceu com nenhum dom.

De diaba à santa, basta um fechar eterno de olhos. De santa ao esquecimento, basta dar algum tempo. Seus devotos perdem-se em seus corpos, depois também viram mortos. Minha alma é comida de bicho e petróleo. Sou carbono e amoníaco. E nem sei o que significa isso. Li num poema asqueroso de um anjo.

E a pensar tantas vezes na forma de morrer, vi que não existe sequer uma boa alternativa. Viver dói, já deixar de viver, não sei. Não há nenhum sentido no universo mesmo. Pra quê isso tudo? Ai, que dor de cabeça. Não sei se gostaria de saber as respostas, nem mesmo sei se elas existem. Mas a incerteza me dá dor de cabeça.

Sei lá. Já disse que sou só alguém só num mundo de gente acompanhada, tentando pôr na tela algumas palavras difíceis e rimas desnecessárias. Perplexa como que aconteceu do outro lado do oceano, tentando cronizar o desastre aéreo do ano. Montes gelados salpicados de confete metálico na TV, sorvete com granulado na minha boca. Adoce-me, mas não me faça morrer com diabetes.

Ah, a alguma conclusão pelo menos eu cheguei. Não quero morrer assim. Não quero morrer de forma alguma.

Mas acho que minha opinião não importa muito,

sábado, 21 de março de 2015

Sozinhos

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E que fiquemos sozinhos, você sabe o que iria acontecer. Ninguém é o mesmo quando não tem ninguém para ver. Ah, se ficássemos sozinhos. Eu olharia nos seus olhos e você entenderia o recado. Você é sujo. Sujaria-me também. Sujaria minha mente com suas palavras, o meu corpo com suas mãos e o meu coração com o que você me faria sentir.

Da sua boca eu ouviria palavras manjadas de um sedutor qualquer. Inúteis, de fato. Apelaria para sussurros ao pé do ouvido. Lábia tão eficaz que me faria te pedir para calar a boca. Quando ficarmos sozinhos, não vou querer te ouvir, queria te sentir. Em mim. E só.

Por favor, use sua boca para outras coisas. E ao ficarmos sozinhos, vou sentir aquele beijo de leve, bem devagarinho, com aroma de vinho tinto, usando seu lábio macio enquanto faz aquele velho caminho até chegar no ninho. Sem pressa, como se tivéssemos e noite inteira. Em pequenas porções. Você não beija como um faminto, que engole tudo de uma vez. Seu beijo é gourmet. Gosto quando você me degusta, quero sentir seus sabores enquanto você sente os meus.

Com suas mãos, faria o que quisesse. Eu deixaria. Não haveria razão para não ser assim. Eu seria sua e entre aquelas quatro paredes te deixaria me levar para qualquer lugar. Do inferno ao céu, porque não há pecado mais divino ou antítese que faça mais sentido.

Me joga, me morde, me marca. Tô dizendo assim, na lata, sem aspas. Estou sendo sincera como nunca fui. É verdade, sempre tive uma queda por você. As vezes que nossos lábios se encostaram só serviram para deixar minhas pernas bambas e me deixar cada vez mais desequilibrada. Cada vez mais propensa a cair de vez, no chão, de quatro. Arriada, como se diz por essas bandas.

Cê nunca prestou mas as vezes me esqueço disso. Tipo agora, enquanto imaginava a nossa jornada até as estrelas, ou pelo menos até aquele gemido de prazer para ser menos romântica. É claro que ficar sozinha contigo não é boa ideia. Não basta ninguém saber o que eu poderia fazer, eu saberia. Não saberia dizer o que depois viria.

Não sei se me perdoaria, decerto me arrependeria e nem sei se valeria a pena.  A única certeza que tenho é que, ao ficarmos sozinhos, faríamos um espetáculo particular sem script, ensaio ou reprise. Seria bom e eu aplaudiria. 

Já não sei mais de nada. Há uma contagem regressiva. Tic toc tic toc. Você me faz me sentir ridícula. Sequer te amo, meu bem. Mas você me tem e não passa desse ano. Dispa-me na nossa despedida. Sóbrios ou sob o efeito de qualquer coisa para facilitar as coisas. Sabe como é, sempre é bom ter alguma substância para pôr a culpa.

E que enfim fiquemos sozinhos. Como qualquer adolescente idiota, fazendo algo escondido. Depois, nos daríamos adeus e nos encontraríamos esporadicamente até perdermos o contato. Não é assim que costuma acontecer? 

Então que se foda o mundo e venha comigo. Nós vamos ficar sozinhos.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Reclamadora compulsiva



Escrever é um ato de coragem e talvez eu seja uma covarde. Ando fugindo de teclados, lápis e páginas em branco como o diabo da cruz. Escrever dói e liberta, cada letra é uma facada e uma mensagem subliminar de pedido de ajuda. Não sei se sou exatamente discreta no que gostaria deixar nas entrelinhas apenas para bons entendedores, ultimamente minha dor é mais descarada e sem vergonha ainda que disfarçada com um sorriso de quem não está nem aí. Sou péssima em disfarces tanto quanto sou péssima em discrição.

A felicidade não deixa brechas para as palavras. Quem tem tempo de registrar alguma coisa com um sorriso no rosto? Ah, isso não importa. Todos já sabem que a dor faz a arte. Se é assim então, sou o artista preguiçoso que prefere poupar a tinta e as lágrimas ao mesmo tempo. É tudo uma coisa só.

Sou o retrato do egocentrismo da minha geração nem tão romântica assim. Eu quero, eu sinto, eu sonho. Eu não aceito não. Eu importo. Eu sou alguém. Eu. Tenho fama de fria, mas tenho lá meus pontos fracos. Meu bem, sou tão fraca quanto essa folha de papel que estou prestes a rasgar devida força da minha escrita raivosa e inconformada. Só não te deixo saber disso. Queria não saber também.

Ao mesmo tempo, grito aos quatro ventos o quanto acredito que a vida está sendo filha da puta comigo. Já disse que não sei guardar nem meus próprios segredos? Preciso ouvir um "eu te entendo", preciso que alguém fique do meu lado, quero que concorde comigo mesmo sabendo que isso não adianta de nada. Sou uma reclamadora compulsiva, talvez até mal-agradecida, que no fundo acredita que vai arrumar alguma solução todas as vezes que conta sua história. Quem diabos quer saber da minha história?

Quer saber? Meu pai não gosta que eu diga o que penso por aí, mas ele nem deve lembrar que isso existe, então vou meter a real. Tá foda. Tá difícil pra caralho. Vai, pai, deboche de mim ao ler isso. Pode debochar. Você nunca me entendeu nem nunca vai fazer esforço algum para isso. E ainda que você odeie que eu fale palavrão eu vou dizer: que se foda. Você nem deve saber o porquê disso mesmo, você nunca presta atenção, e mesmo se soubesse, não ligaria mesmo.

Céus, eu prometi não escrever sobre o meu pai. Também prometi não mais reclamar, e olhe só o que estou fazendo? Mais um texto de quem não valoriza o que tem só por causa do que não tem. Um amigo fez me sentir ridícula e envergonhada por isso. "Ei, Alice, você não é a única pessoa que tem problemas." Certamente não, ele tinha toda a razão.

Não sei como dar fim nesse diário que não é diário e crônica que não é crônica. Até agora lamentar não resolveu nada nem escrever me libertou de coisa alguma. Minhas palavras só libertaram pensamentos que talvez devessem ter ficados num presídio de segurança máxima ou terem pego pena de morte. Do outro lado da parede ainda tem gente acordada achando que eu não sou ninguém. Talvez eu seja. Talvez eu precise crescer e só dar valor a dores de verdade. Para isso, preciso esquecer. Quem sabe, para de doer?