quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Por que eu NÃO sonho com um carro



Talvez essa pauta já seja bem manjada e óbvia, mas se por acaso não se tornou óbvio para você, acho bom que fique bem claro. Vou começar com três palavrinhas chave: poluição, engarrafamento, sedentarismo. Acho que vocês já sabem do que se trata.

Todos querem uma geringonça de quatro rodas, cinco lugares, para, de preferência, sair por aí andando sozinho do trabalho para casa. É sonho de consumo. É status, é coisa pra "pegar mulher", é sinal de quem tá se dando bem na vida. Risos. Não me leve a mal, adoro carros. Eles são como as lanchas, as motos são como os jet skis e os pedestres são como os banhistas. Eles, de fato, são legais. Não perco um museuzinho de automóveis, inclusive. Não que eu entenda disso nem nada, só acho legal mesmo. Carros são confortáveis, cômodos. Uma road trip então, não tem como dispensar. Uma delícia. Uma invenção incrível, não ha como discordar. Só maravilhas? Nem tanto.


Vamos começar então por onde dói mais, no bolso. Esse troço custa caro. Claro que nos últimos anos, com os milhares de incentivos, ter um ficou mais fácil. O que não significa que manter aquelas quatro rodinhas seja barato. Fora o próprio valor que se paga na concessionária, tem um monte de imposto, combustível, manutenção... Ai, já tá dando dor de cabeça. 

Ainda assim as pessoas compram carros. Além daquela questão do status, realmente há uma necessidade. Afinal, são para eles que as cidades são construídas. E isso é bizarro. Será que ninguém nunca pensou que isso não daria certo? Se em Maceió o trânsito é uma loucura, imagina em cidades como São Paulo? Simplesmente não dá. Não tem como criar espaço. Só se construírem inúmeras túneis e viadutos o que, na boa, sabemos que é inviável. Nem lugar para estacionar tem. E quando tem, é o olho da cara. E isso não é besteira não. Perde-se muito tempo no trânsito. Muito mesmo. É uma perda de tempo de vida, de tempo produtivo, de saúde mental. Quase todo mundo perde. Sim, quase. Porque se vivemos nesse sistema, é porque alguém muito poderoso tá ganhando é muito.

Agora imagine que o melhor urbanista do mundo faz um puta de um projeto que abrigue ainda mais carros na cidade sem engarrafamentos. Problemas resolvidos? Não. Mais carros, mais poluentes na atmosfera. E, na boa, não precisa ser nenhum especialista para saber que aquele ar das metrópoles não faz bem para a saúde humana, quanto mais para a saúde do planeta. As consequências disso tudo vocês podem imaginar.

Falando em saúde, não acho que essa coisa de ficar sentada um tempão faça bem. Não sou ninguém para falar de sedentarismo, confesso. Mas vou fazer outra confissão: acho hilário quem paga uma grana preta na academia porém não vai nem à padaria a pé. Não vou pôr a culpa do sedentarismo nos carros, só não posso negar que sim, eles contribuem com tudo isso. Ah, não preciso dizer as consequências do sedentarismo não né?

O mais perto que cheguei de pedalar em Amsterdã e a guria que tirou a foto faz uma cagada dessas...
É por isso que em vez de passar toda a minha vida juntando dinheiro para andar motorizada, vou sonhar com outra coisa. Sabe o que eu quero mesmo? Sair despreocupada sabendo que vou ter um transporte público bacana para usar, tirar a minha bicicleta da garagem, ser mais livre. Ainda não posso fazer isso nem sei se um dia vou poder, pelo menos no Brasil. Só agora vieram acordar, a passos de lesma, sobre esse assunto. E - pasmem - tem gente que ainda critica quando algum prefeito abençoado resolve colocar ciclovias. É claro que pintar um pedacinho da rua de vermelho não resolve tudo. Precisamos de sistemas eficientes para aluguel de bicicletas, integrar as magrelas com o transporte público, criar leis para melhorar a vida do ciclista no trânsito e por aí vai. E o mais importante (e difícil): dar segurança para que ninguém saia aterrorizado com a possibilidade nem tão remota assim de um maluco por uma arma na tua cabeça e tomar tua bike.

Bons exemplos não faltam. Céus, quando fui à Amsterdam, conheci o paraíso. O resto da Europa, ou pelo menos as partes que visitei, também estão a anos-luz a frente do Brasil no quesito mobilidade. Quando vi aquela rede maravilhosa de trens, metrôs, ônibus, bicicletas, e até os carros. Lá, pelo menos a preferência é pelos pequenos (diferente dos brasileiros que acham lindo aquelas jamantas de fazenda para andar sozinho na cidade), fora que muitos são elétricos. Eu fiquei encantada.

Não dá pra ficar comparando Brasil-Europa como se fosse céu e inferno porque são realidades completamente distintas. Inclusive, os superestimados Estados Unidos da América, no geral, também não me parecem nada amigáveis com qualquer meio de transporte que não seja o carro, por exemplo. Mas é claro que dá para fazer alguma coisa. Governantes, hello! Ai se eu pudesse ser escutada e atendida...

Não que eu possa fazer muita coisa além de um textinho. Na verdade, não tenho a intenção de mudar nada sozinha. Talvez eu precise me render. Talvez um dia eu compre um carro e parcele em 52 prestações. Até gostaria de um para pôr o pé na estrada de vez em quando, se tiver grana suficiente. Só queria falar o quanto o mundo seria mais legal se as pessoas deixassem isso um pouco de lado, só isso. Queria pedalar para a escola por aqui sem que parecesse tentativa de suicídio. Que isso não fosse "coisa de pobre". Que eu não fosse considerada uma sonhadora utópica só por isso.


Minha bicicleta só conhece a orla, quero apresentá-la o resto da cidade. É por isso que eu não sonho com carros. Sonho com um lugar feito para duas rodas, quatro, oito, dezesseis... mas, sobretudo, um lugar feito para pessoas.

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