terça-feira, 4 de março de 2014

Sem guia, por favor

hakunamalife | via Tumblr
Imagem
Os meus pensamentos se perdiam pela cordilheira que passavam pela janela do carro quando avistei algo enfeitando o topo das montanhas. Eu mal acreditei no que vi, aquilo não poderia estar ali em pleno verão. Bobagem, era mesmo verdade. Eu só não poderia ir para casa sem sentir aquela coisinha branca derreter entre meus dedos.

Pedi então para parar ali sem me importar nos minutos perdidos de atraso na jornada. Nem mesmo liguei para aqueles que me esperavam sem tirar os olhos do relógio. Deviam estar pensando o quanto aquilo era tolice. Na verdade até era mesmo, para aqueles que podem pegar o primeiro voo para ir esquiar nos Alpes. Mas para quem não teve essa mesma sorte, restou experimentar com um sorriso na cara a fina camada de chuva gelada ali do lado da estrada.

Então desci. Jeans, camisa polo e all star. Os olhos mal conseguiam abrir em meio ao brilho branco no meio do nada, do lado da estrada. As montanhas estavam cobertas por aquilo que mais parecia um lençol fininho para cobri-las a noite. Cobertor que queimava a mão, deixava os pés molhados e me fazia sorrir. Foi breve. Logo me despedia do novo, ainda cheia de fôlego mas sem poder ficar nem mais um segundo para apreciar a vista, deitar e rolar, sem medo de ser feliz.

Se falta coragem pra ser feliz eu não sei, mas fico imaginando como é conhecer quase o mundo inteiro sem se surpreender com quase nada, sem vontade, sem aventura, sem viver aquilo com toda intensidade possível. Imagino como é chegar e já contar os segundos para voltar. Imagino o que se passa na cabeça do ser humano que voa para o outro lado do continente e se tranca no quarto do hotel. Imagino também se eu daria o mesmo valor às coisas que hoje valorizo tanto se eu tivesse nascido com o que eles têm. Se eu me trancaria, contaria as horas, se eu veria graça no mundo.

Mas prefiro imaginar que eu não seria como eles. Prefiro ficar grata com o que tenho e fico feliz por ser desse jeito. Fico feliz por conhecer as coisas assim, aos pouquinhos, com gosto. Degustando tudo o que posso no momento que posso, uma surpresa a cada esquina. Fico feliz mesmo com as dívidas malucas feitas para ir para lugares malucos. Vou mesmo sem poder porque sou uma maluca cheia de vontade de viver.

É por isso que eu sinto em dizer que não desejo mais dividir a jornada com aquelas pessoas. Não tenho cacife para comer salmão no café, almoço e no jantar nem tenho paciência para as tantas escolhas e desistências. Eles precisam de um guia e eu preciso conhecer o mundo por conta própria. Prefiro a minha aventura à sua comodidade e prefiro dividir minha aventura com quem realmente gosta de uma aventura.  E preciso de alguém que entenda o meu encantamento com a tão falada neve que nunca vi daqui do litoral do nordeste.